sábado, 11 de abril de 2009



- Seus olhos abstratos, saltados, embotados de vida, como flâmula de nação sofrida, já diziam tudo.
Não os olhos. Seu pulsar.
Pulsavam, os olhos, sem nenhuma razão profundamente clara. De certo que fossem folhas secas, que sem vida, levitam pela graça do vento.
E o vento era a vida, o sofrer. Nenhum espelho era capaz de rebuscar a tristeza, a dor. Via-se refletido apenas o símbolo, não o signo.
E o sígno era tão inexplicavel quanto retórico e reticente. E a vida era reticente. Colhia-se uma e outra historinha, e ia-se compondo com e sem maestria um frangalho de histórico.
Já que suas decisões eram já previstas como cartas que não seriam lidas, não seriam sequer enviadas - não as tomava. E passou a tomá-las com o passar do tempo. Já que cartas, cedo ou tarde são abertas.
E como num súbito e recontido encostar dos pólos. Tomou decisão. E tomou muitas outras coisas. E a flâmula desceu, sem hino.
Folhas pararam de levitar, o abstrato do olhar se converteu em palpebras cerradas. Os olhos saltados embotados de vida tornaram-se cinzentos, embotados de morte.


(Andriel Coutinho)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um dia legal. Nada de sol entrando pela janela de manhã, nenhum despertador gritando, e nenhuma voz familiar suplicando que eu acordasse. Tudo bem, não foi tão legal assim - aconteceu aquele movimento matinal em casa de familia, que sinaliza que tudo está bem. Não estaria caso contrário.
Aliás hoje, cá com meus botões, estive pensando em como eu levaria uma vida sozinho - aquela solidão íntima, de acordar sozinho, comer sozinho, e dormir sozinho. - Dado que vou mesmo acordar sozinho por muito tempo.

Fiquei matutando, martelando, e comecei a imaginar coisas deploráveis onde sou um quarentão que mora sozinho, e me entedio a cada zapeada que dou na televisão, a cada revisada na geladeira - mesmo de pança cheia - a cada meia vontade que dá de navegar na internet - banho? já tomei. Passarinhos pra dar água, não tenho! Cachorros pra brincar? Não gosto de coisas que latem, afinal eu moro sozinho por culpa mór do barulho. Sobra-me o gato - sim, todo quarentão tem um bixano - Mas gatos não são companheiros, eles vivem de telhado em telhado, e miam quando querem comer. Quando eu decidir ir correndo pra casa de alguém, já é tarde demais, então morro de tédio, e o gato come minha cabeça quando vier procurar comida.

Meio tonto, e meio assustado com o reflexo do espelho, ao sol escaldante vespertino, fico aliviado ao fim do sonho lúcido, e vou mesmo correndo pra casa de alguém. Talvez eu não goste tanto assim de liberdade. E talvez isso seja carência. Já sei! vou morar num albergue!

sábado, 22 de novembro de 2008

Lucid Dreamin'


Sonhos... por quê nos inspiram tanta distância? Viajar em um sonho nunca me foi problema, nem dificuldade. Mesmo sendo totalmente indiferente com os assuntos água-com-açucar e blá-bla-blás melosos, sempre me pareceu nobre imaginar uma realidade onde eu não conste. Talvez não fosse bom sonhar, se fossem os sonhos tão banalmente realizáveis curto prazo. Desejar é acima de tudo algo que para mim significa o prelúdio mais ou menos árduo, um desafio a percorrer. Mesmo que sejam espaços curtíssimos, há de se sonhar pacientemente, como fosse anestesiado pelo prazer deste momento, o que logo me leva a apregoar que percorrer não é mergulhar em estradas dolorosas e rumos adversos, é sim voltar-se a seu caminho próprio e fazer com tal o melhor que se pode.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Mão no barro! {emergente}

Quando eu era menor que hoje, e justamente por ser o menor tinha que aceitar brincar a brincadeira que fosse imposta por minha adorável e um tanto agressiva irmã. Ora me vem a memória quando fazíamos bolinhas de barro com pedrinhas que eram nossos bolos de chocolate, e enchíamos potinhos com capim e água, que ensaiava ser o refresco. Logo me esquecendo que fui sutilmente obrigado a brincar de restaurante, poderia passar uma tarde inteira com a mão no barro...
Hoje, me lembrei de tais cenas ao ver uma de minhas colegas percorrendo catálogos telefônicos a procura de spas (ou porcamente traduzindo: espeluncas zen que chupam a grana de quem quer ser magro e saldável) que fazem massagem com barro e servem suco de clorofila (ou qualquer nome que se dá aos modernos sucos verdes que servem para tudo mas não curam nada). O estranho foi pensar em como viemos parar no inverso, em um planeta moderno onde adultos brincam com barro e grama e crianças levam a sério computadores e celulares de verdade.